Ruth de Souza / a atriz / teatro, cinema, racismo e história

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[Rio de Janeiro, setembro de 2013]

Questionava o maldito trânsito carioca de dentro do táxi. Um pontinho amarelo travado em meio a outros pontinhos na via expressa era minha condução. Cochilei (como sempre quando estou em um carro). Acordei na rua do Palácio Guanabara. “Estamos perto”, afirmei em pensamento, ao mesmo tempo em que observava a disparidade visual da zona sul do Rio de Janeiro em comparação com outras regiões da mesma cidade. “É tudo bonito, até a luz do Sol ilumina e cria sombras mais interessantes aqui”, percebi rindo. A cidade maravilhosa encontra-se aqui, pois o resto não garante tantas maravilhas. O turismo é maior aqui e só aqui. É uma bolha. Quem vem de fora não conhece a periferia onde eu cresci. Com cabeça cheia de lamúrias e ufanias, cheguei ao destino. Um prédio simpático. Toquei a campainha. Fui andando pelo corredor da recepção; a porta ao final já estava aberta. Adentrei e vi uma senhora linda sentada no sofá. Disse apenas um “oi” ao ficar frente a frente com Ruth de Souza. Que honra poder conversar com uma das grandes damas da dramaturgia brasileira.

Trabalhei (se assim posso dizer) com ela na gravação de um episódio do programa de TV “Você Decide”, da Rede Globo, em 2000. Desde então, tornou-se amiga e manteve contato. Um ano mais tarde, talvez por coincidência do destino, meu irmão também dividiu cena com a atriz na novela “O Clone”. Um privilégio de família. Atualmente, aos 92 anos, enfrenta um problema em umas das pernas, limitando-a de andar. Porém é temporário, Ruth não quer ficar parada. Ainda recebe muitos convites de trabalho. Recebeu um lindo presente, em 2011, ao ser tema de uma exposição chamada “A Sacerdotisa da Dramaturgia”, sob curadoria de Emanuel Araújo.

Nasceu no Engenho de Dentro, bairro do Rio, em 1921. Ainda bebê, foi morar em um pequeno sítio no interior. Após a morte do pai, aos nove anos, sua mãe vendeu o lote, voltando para morar em Copacabana. Era a mais velha de três irmãos. “Minha infância foi muito agradável e divertida”, recorda. “Toda vez que falo de Copacabana, isso me comove. Era lindíssima, cheirosa porque todas as casas tinham jardins e árvores com frutos, era muito gostoso”, passeia por suas lembranças. Morava em uma vila com dez casas. A sua era a décima. Sua mãe era lavadeira e a pequena Ruth gostava de brincar perto dos lençóis. “Lembro-me de ir patinar na Rua Barata Ribeiro, só que tinha carro – era gente muito rica, então não tinha quase carro nenhum. Hoje, me assusto até aqui na esquina de tanto carro”, compara. A cena do funeral de seu pai, para ela, foi cinematográfica. “O cemitério era do outro lado. As canoas tinham que atravessar o rio, uma atrás da outra com flores. Eu vejo como uma cena de filme”, emociona-se. “Recordo da minha mãe chorando e de um pé de jenipapo carregado. ‘Amanhã venho aqui pegar frutos’”, pensava inocentemente a menina Ruth diante do cortejo.

Falando de cinema, o primeiro filme a que assistiu foi “Tarzan, O Filho das Selvas” (1932). Ficou vislumbrada e tentada a descobrir como aquilo era feito, como as imagens se mexiam dentro de uma tela. “Por toda vida eu quis ser atriz”, afirma. “Minha mãe passava roupas enquanto eu contava as histórias que tinha visto”. Sua maior incentivadora foi a mãe, mulher aculturada que ouvia as transmissões das óperas do Teatro Municipal via rádio. “Ela me ensinou a gostar de cinema e teatro.”

O Teatro Experimental do Negro foi um grupo de artes cênicas com o objetivo de dar ao ator negro condições de levar aos palcos personagens livres da trivialidade exibida pelo teatro brasileiro no século 19. O garoto sapeca e a mãe preta chorosa, por exemplo, seriam descartados em troca do verdadeiro ator negro humanizado em tramas e questionamentos mais complexos e à altura do seu talento.

Ruth fez o teste apenas de curiosidade e passou. Atuou durante cinco anos como amadora no grupo. No dia em que terminou a Segunda Guerra Mundial, estreou sua primeira peça: “O Imperador Jones”. Conheceu, futuramente, o teatrólogo Pascoal Carlos Magno, que mudou sua vida como atriz. “Estava na casa dele quando apareceu o representante da Rockefeller Foundation, oferecendo uma bolsa de estudos”, conta. “Ele perguntou se poderia mandar uma menina negra para os Estados Unidos”, sorri. Ficou um ano em Cleveland, Ohio. “Aprendi muito com o cinema americano ao prestar atenção nos gestos das atrizes que admirava. Foi muito importante para minha carreira.”

Primeiramente, “eu estava com medo de ir para lá por causa da questão do racismo que era muito forte naquela época”, confessa. Contudo, apareceu ninguém mais, ninguém menos que Vinícius de Morais e lhe entregou uma carta dizendo que “se qualquer coisa acontecer com você lá procure meus amigos em Washington, na embaixada.”

A rotina da jovem bolsista brasileira na terra do Tio Sam era praticamente assim: “Chegávamos umas oito da manhã, tínhamos exercícios, balé, coral”, perde-se na enumeração, “um dia era pintar cenário, outro dia era ensaiar, montar iluminação. Fui assistente de direção e até em bilheteria participei. Tínhamos que conhecer tudo que se faz dentro e fora do palco.” Ainda em Cleveland, Ruth recebeu um convite da Vera Cruz, produtora famosíssima na década de 50 e na história do cinema brasileiro, para o filme “Sinhá Moça”, cuja atuação rendeu grande avanço na carreira, além da indicação ao prêmio de melhor atriz no Festival Internacional de Cinema de Veneza, em 53. Concorreu com Katherine Hepburn, Michele Morgan e Lilli Palmer, perdendo para a última por apenas dois votos. Antes de “Sinhá”, a atriz participou de longas como “Terra Violenta” (1948), “Terra é Sempre Terra” e “Ângela” (1951).

Sua casa era bem arrumada, a luz indireta vinda de um abajur, de um pequeno lustre direcionado a uma mesa de mármore e de uma varanda interna. A televisão estava ligada, mas a atriz desligou para conversarmos sem ruídos. Pediu até para sua sobrinha, que cuida da casa e a auxilia em seus afazeres, a não fazer barulho. Ela apoiava sua perna em um banquinho devido às dores. Ao seu lado, na mesma mesinha do abajur, ficavam canetas, um bloquinho de papel, um batom, seus óculos e o controle remoto. Havia também uma estante cheia de livros de arte, cinema, histórias de novelas e consciência negra. Troféus, fitas, DVDs, fotos e souvenirs, também recheiam as prateleiras.

“Teatro, TV ou cinema? Qual a diferença?”, perguntei duas vezes. “O teatro é a base. Quem faz teatro, faz bem cinema e televisão”, resume ajeitando-se no sofá. “O teatro exige mais. Mais cultura, requer que você estude muito mais, dois meses para ensaiar uma peça, por exemplo. Hoje na televisão, você sai de cena e ganha na hora o texto para decorar. Não dá para se preparar bem. É milagre o que fazem com os atores na TV”, critica Ruth. O cinema já é mais sereno, de acordo com a atriz, todavia as produções da telinha estão tão grandiosas quanto às da telona.

“Quais os filmes em que você mais gostou de trabalhar?”, puxei outra pergunta antes do silêncio incomodar novamente. “‘Sinhá Moça’”, respondeu primeiro, “‘Assalto ao Trem Pagador’ e ‘Filhas do Vento’, são os três melhores que já fiz.” Volta e meia, acontecia uma pausa que parecia longa na conversa. Não por falta de assunto, mas porque as respostas estavam sendo curtas mesmo. Tinha de deixá-la falar. Vamos fugir do roteiro programado.

 “Como a senhora treinava e decorava seus papéis? Ficava falando sozinha pelos cantos?”, questionei aleatoriamente. Ela sorriu e deu uma leve gargalhada. “Eu pego o texto, leio o roteiro todo para saber que posição tem a minha personagem, o que ela está fazendo dentro da história. Aí, começo a estudar só essa personagem e a tentar criar alguma coisa em cima. É tudo com concentração, nunca fiquei fazendo gestos ou treinando no espelho. Treinar e decorar é somente com concentração, entrar na história”, esclarece. A atriz completa ao dizer que cada personagem precisa saber “de onde veio, pra onde vai e o que está fazendo ali.”

Ruth atuou muito como atriz-coadjuvante. “Sempre tive papéis coadjuvantes, mas, graças a Deus, sempre meus papéis tiveram destaque”, orgulha-se. Quando eu ia continuar, Ruth prosseguiu. Era isso que eu queria. “O que acontece é o seguinte: às vezes o personagem coadjuvante é muito mais importante numa história do que o próprio mocinho ou mocinha. Um roteiro não pode seguir apenas com os protagonistas, existe o elenco de apoio”, avalia. “Que em vários momentos se sobressaem mais que os atores principais”, acrescentei, recebendo o aval positivo da atriz. “Quando há um bom papel, não importa se é mocinho ou mocinha, o que importa é um bom papel”, assevera confirmando por meio de gestos.

“Vou adiantar um ponto que você ainda vai perguntar”, antecipa-se. “A questão do ator negro no meio das artes.” Eu ri e disse: “Fique à vontade”. Agora ela estava puxando os assuntos. “Na minha época, as atuações dos negros eram sempre ‘pai João’, ‘mãe Maria’, o ‘negão atrapalhado’ ou o ‘moleque assustado que dava recados’. Fora quando pintavam o ator branco de preto para fazer o tal papel. Caricatos e ridicularizados”, lamenta balançando a cabeça. “Nós fundamos o Teatro Experimental do Negro para mostrar que o negro podia ser ator. Foi um espanto”, lembra. “Nós apresentamos Shakespeare,  O'Neill, entre outros. Foi assim por cinco anos”. Em seguida, começou a aparecer um negro aqui, um negro ali. “Quase sempre a atriz tinha que ser bem gordona, parecendo a de o ‘E o Vento Levou’”, ironiza com um esboço de sorriso.

Pioneira, Ruth foi a primeira protagonista negra de telenovela em “Cabana do Pai Tomaz” (1969). Ela abriu as portas da dramaturgia para os jovens e novos talentos por meio de suas conquistas. “Eu conquistei a tapa, engoli muito sapo. Era difícil. Sofri ‘limitação de trabalho’ por ser negra”, desabafa. Um aluno de Pascoal Carlos Magno tornou-se diretor de radionovela e Ruth tinha o sonho de participar. Ela o procurou, porém recebeu a seguinte desculpa do cidadão: “Eu não tenho nenhum papel para negro nessa peça”. “Mas a voz do negro tem cor?”, revidou a atriz. “Como é que eu posso explicar?”, procura pelas palavras. “É o hábito de ver o negro sempre em segundo plano”, diagnostica a doença das artes. Segundo ela, a mulher negra é renegada e colocada em segundo plano até hoje. “Ou é a mulher sensual, a mulata gostosona ou então a gorda engraçada. Estereotipadas.”

 “O jeito que essa meninada, hoje em dia, faz teatro, televisão e tudo é tão...”, pausa mais uma vez para buscar palavras, “repetitivo, muito igual. Parecem uns ‘clonadinhos’”, brinca. Por outro lado, fica muito feliz ao ver o sucesso de Thaís Araújo e Lázaro Ramos.

Ruth gosta de reparar em detalhes como, por exemplo, quando um homem negro melhora de status social e, muitas vezes, abandona sua mulher negra para se casar com outra branca. “Perguntei sobre o porquê disso acontecer para o embaixador da Costa do Marfim. Ele me respondeu que ‘eles [homens] sofrem muito com o preconceito. Casar-se com uma mulher branca é como se fosse uma coroação para o sucesso’”, alfinetou o funcionário diplomático.

Já que tocamos no assunto preconceito, questionei sobre essa questão. “No Brasil é ridículo. Ainda mais nesse país onde as culturas são misturadas”, repreende a senhora. “Tem diferença do seu tempo para cá?”, indaguei sem interrompê-la. “A falta de educação é a mesma”, replica. “A única arma que temos contra qualquer tipo de preconceito é a educação. Pra que esse preconceito? Todo mundo é ser humano, né?”. O ensino de dentro de casa e o da escola, segundo a atriz, tem diferença. Tem que começar dentro. Se não tiver em casa, não vai ter fora dela.

Percebi que esse assunto renderia desabafos. A falta de respeito ao próximo a incomoda demais. “Dá medo de andar na rua, não se pode confiar em ninguém mais. O mundo tá muito estranho”. Ruth culpa em partes a mídia e seus afluentes: TV e cinema. “As novelas (e filmes) agora só têm cama, maldade, violência, ensinando ambição, a destruir o próximo para se obter alguma coisa. As histórias estão estranhas.” Ruth se expressa dessa forma não por ser uma senhora de idade, quadrada ou careta. Muito pelo contrário, sua bandeira tem a ver com o que ela aprendeu com o cinema. Em aulas de sociabilidade que cursou quando estudava nos Estados Unidos, conheceu o relacionamento correto e ético entre diretores e atores, entre colegas de profissão. Desenvolveu o gosto pela moda por meio dos conselhos de dois grandes estilistas, costureiros e amigos, Clodovil Hernandes e Dener Pamplona de Abreu. “Ninguém compra um sabonete com embalagem feia. Deve-se vestir adequadamente para cada ocasião”, disse no mesmo tom que ouvia em suas aulas. “Aprendi quem foi o inventor da lâmpada, quem foi Maria Antonieta, o inventor do telefone e muito mais através do cinema”, exemplifica.

Para Ruth, falta ao cinema contar histórias com princípio, meio e fim, com uma finalidade coerente e diversão, mas também com bom gosto. Ou seja, voltar às raízes da sétima arte

Ruth nunca se casou e nunca teve filhos. “Por quê?”, sondei com curiosidade. “Porque ninguém quis casar comigo.” Rimos. “Eu me dediquei muito à carreira; se fosse me casar, com certeza teria problemas para conciliar crianças, marido e trabalho”, explica rindo consigo mesma.

Uma vez ouvi em uma entrevista a seguinte declaração: “Uma menina que sonha e continua sonhando”. “Com o que você sonha, Ruth?”, questionei. “Eu sonho com um mundo melhor, com respeito ao próximo. Sonho ainda em realizar alguma coisa no cinema”, sorri. “Se você parar de sonhar, você não vive, né? Tem que estar sempre sonhando”, finaliza a atriz.

Em diversos momentos, Ruth sacava um lencinho do bolso da calça para secar os olhos que lacrimejavam involuntariamente. Em certos momentos, jurava que ela se emocionava, principalmente ao lembrar dos anos do primeiro amor com o cinema brasileiro. Ela chamou sua sobrinha e pediu que buscasse três livros com capa verde perto do guarda-roupa. Eram três álbuns de fotografias. A atriz foi folheando. As fotografias que estavam soltas ameaçavam cair, mas eram amparadas pelas mãos enrugadas da senhora. Ela contava o enredo de cada cena registrada para mim. Quantas festas, eventos de gala, sets de filmagens, mergulhos em piscinas com famosos, conversas formais e informais. Parei em uma foto, cujo protagonista é Jânio Quadros. O ex-presidente recebia um beijo no rosto da jovem atriz Ruth de Souza. Foto histórica.

Olhando ao redor e me situando novamente em sua sala de estar, observei que cada canto daquele cômodo tem parte do que ela é. Seja em quadros pintados especialmente para ela, caricaturas, detalhes em móveis, joias, fotografias, decoração, cores ou a falta delas. Sua bagagem é imensurável. O que dizer de alguém que tinha como amigos de bate-papo Jorge Amado, Vinícius de Morais e Nelson Rodrigues? Ou que se sentava à mesa com Grande Otelo? A atriz levantou-se do sofá para se despedir de mim. Mesmo com dores na perna, acompanhou-me até a porta. Nós nos despedimos e agora voltava novamente pelo corredor da recepção. Delicadeza e elegância da parte dela. Muita classe. Pessoas como Ruth de Souza deixam, realmente, o Rio de Janeiro uma cidade mais maravilhosa.